Saturday, November 14, 2009

Meu Querido Gratuito


O sentimento de posse de um jornal diário gratuito é algo digno de um estudo sociológico ou psicossociológico.
Na rotina quotidiana e metropolitana de leitura desse tipo de publicações é frequente assistir à repetição de um determinado comportamento: a forma gananciosa com que se segura e tenta resguardar dos olhares alheios um objecto que, apesar do carácter gratuito, parece, naqueles instantes, revestir-se de ouro e diamante. Ainda que, logo a seguir, sejam deixados ao abandono e votados ao desprezo do descartável, nas gretas entre os bancos.
Já constatei, a título pessoal e em diversas ocasiões, que quando o fiel depositário provisório do exemplar do gratuito X se apercebe que estou a olhar de esguelha para as gordas vira imediamente a página, amarrotando as folhas, na pressa de dispersar a minha atenção, e contorcendo a expressão facial com um ar indignado, como se fossem dizer-me:«vai comprar o teu!».
Já cheguei ao cúmulo de assistir a casos em que a ofensa causada pela minha espreitadela parece ser tal que preferem fechá-lo ou fazer a leitura ao contrário, de trás para a frente, e de forma apressada, sem se fixarem numa página ou num artigo em concreto, para não dar tempo suficiente para a olhadela intrusa. A missão é clara: «não deixar o do lado ler nada. Este gratuito é meu».
As páginas de publicidade agradecem, acabando por ser uma boa barreira à 'bisbilhotice' alheia.
Certamente, um destes dias, encontrarei alguém que vire o jornal de pernas para o ar, só para ver até onde vai o contorcionismo do meu pescoço e dissuadir-me de vez da espreitadela.
Até lá faço votos que entre essas pessoas susbsistam algumas que conservem, ainda, o antigo costume nacional de, finda a leitura, deixar o jornal no banco com o propósito consciente e generoso de que quem vier a seguir poder ler também. Afinal agora até os há gratuitos.

Wednesday, October 28, 2009

Ainda com Barcelona na cabeça

Ainda sob o efeito da visita a Barcelona, a primeira de muitas, espero,e a ver o trailer do novo filme do Amodovar,'Abraços Desfeitos', recordo uma banda, a única de nuestros hermanos de que gostava e que volta e meia ainda oiço (principalmente os temas dos primeiros discos). Muito disso deve-se ao vocalista, um homem que me podia ler a lista telefónica em basco ou dizer os votos em catalão. Enrique Bunbury, casa comigo! Dios mio, que fuerza! :D :D :D

Monday, October 5, 2009

El Mar No Cesa

Es tal el vacío
Insostenible
La letal desidia que amenaza
Siento por momentos
la ausencia de tí
Carente de todo
Disidente de nada
Muero por impulsos
de agonizante grillete
Aprisionado por injustas manos
Miro mil puertas
Están abiertas a la oscuridad
Están abiertas a la oscuridad
Méceme con el impulso
de tu risa
y arranca mi máscara de tragedia
Y que ventee el huracán mis telarañas
Carente de todo
Disidente de nada
Muero por impulsos
de agonizante grillete
Aprisionado por injustas manos
Miro mil puertas
Están abiertas a la oscuridad
Miro mil puertas
Están abiertas a la oscuridad

Sunday, October 4, 2009

I Desideri

Se o desejo de aventura vem acompanhado pelo desejo de segurança há que seguir a ordem: não partir para o segundo sem realizar o primeiro - uma espécie de "confesso que vivi".




«I desideri sono la cosa più importante che abbiamo e non si può prenderli in giro più di tanto. Così, alle volte, vale la pena di non dormire pur di stare dietro a un proprio desiderio. Si fa la schifezza e poi la si paga.»



Castelli di Rabbia , Alessandro Baricco.

Wednesday, August 12, 2009

Obsessivo

Obsessivo é o adjectivo que posso utilizar para definir aquilo em que o facebook se tornou para mim nestes últimos tempos: algo obsessivo.
Se bem que talvez seja mais justo dizer que eu é que fiquei obcecada pelas actualizações sucessivas e inúteis que faço, ou que vejo fazer, regularmente na página dessa rede social, pelos múltiplos quizs - mas estes são giros - e agora,mais recentemente, pela Farmville. É verdade! Esta quinta virtual é altamente viciante, de tal modo que vou lá várias vezes por dia para ver se os morangos já cresceram ou se os meus vizinhos me ofereceram prendas. E também numa de perceber se o teu 'quintal' é maior que o meu.
Posso dizer que me 'vendi', ou melhor 'rendi' a todo um mundo virtual que é facebook.
Mas, por outro lado, com a minha adesão recente também confirmei aquilo que já pensava do facebook, enquanto rede de 'amizades'. É engraçado esta palavra aplicada a este sítio porque, em muitos casos, damos por nós a dividirmos essa imensa rede de relações interpessoais em pequenos grupos. É curioso ver que entre os diversos amigos do facebook há uns que nos seguem ou comentam - e que comentamos nós também - mais do que outros. Tornamo-nos, assim, numa espécie de grupo mais ou menos restrito mas público, que se inter-relaciona mais regularmente. Depois apercebemo-nos que os outros amigos também acabam por fazê-lo com outros amigos, criando outro círculo mais restrito e regular. Em suma o que o facebook acaba por fazer não é alargar o grupo de amizades ou conhecimentos,como inicialmente se propõe. Pelo menos não o faz assim em tão maior dimensão que os contactos palpáveis do mundo real. É claro que há por vezes os comentários de, digamos, uma espécie de amigos em 3º grau. Mas isso também acontece em muitos blogues.
Basicamente as pessoas com quem mais falamos e estamos são também aquelas que mais comunicam connosco no facebook. Depois temos as afinidades dos posts e afins. Depois há aquelas pessoas que já não contactávamos há muito tempo e de quem até queremos saber novidades, mas com quem apenas falamos uma vez. Depois há os que são só colegas mas é bom manter o contacto. Depois existem os contactos dos amigos dos amigos, alguns dos quais nunca vimos mais gordos, assim como pessoas que trabalhavam no mesmo edifício que nós e que mal nos diziam bom dia, mas que agora pedem para ser amigos, vá-se lá perceber porquê. Finalmente há um objectivo se calhar mais residual (ou não)que, na minha opinião, é o que o facebook tem de melhor para oferecer: a possibilidade de reencontrar pessoas que nos são queridas mas que o tempo e, sobretudo, a geografia afastaram.
Apesar de todas as futilidades que agora despejo no meu mural, a razão primeira que me levou a aderir ao facebook foi a necessidade de falar com um amigo meu, que muda de número cada vez que muda de país e que muda de país como quem muda de camisa. Ele está bem.

Tuesday, August 4, 2009

Senegal Fast Food

É um dos discos que mais tenho ouvido este ano. Devo-o ao empréstimo de um ex-colega, que apostou acertadamente (ainda que um pouco presumidamente) no facto de que eu iria gostar deste Welcome to Mali, de Amadou & Mariam. E gostei, bastante! Sabali, Magosa, Djuru estão entre as minhas preferidas do registo. Mas esta que deixo aqui é de um anterior e inclui a participação de um artista que adoro: Manu Chao (volta e meia lá volta a panca pelo Manu e hoje foi um desses dias). Fica o vídeo de Senegal Fast Food:

Wednesday, July 29, 2009

Sonhos e objectivos


Sonhos e objectivos parecem ser uma e a mesma coisa. Mas hoje, depois de um workshop de coaching, fiquei com a sensação que não é bem assim.
Um dos exercícios da sessão consistia em traçarmos em linhas gerais e transformarmos em verbos de acção as coisas que devemos e queremos fazer em coisas que vamos fazer. Ou seja definirmos os objectivos a atingir, exemplos mais imediatos de coisas que queremos fazer mas deixamos andar, por preguiça ou pelas barreiras no caminho. Os exemplos que me ocorreram, não deixando de responder e servir a questão e o fim do exercício, e do próprio conceito de coaching, são efectivamente objectivos a concretizar mas não são sonhos. À medida que outros participantes revelavam em voz alta os seus exemplos, apercebi-me que muitos deles coincidiam com sonhos meus que não tinham cabido no imediatismo da lista escrita num sopro de acção.
É certo que os meus sonhos vão mudando e isso não ajuda à clareza de estabelecer parâmetros, metas, em suma, objectivos a atingir. Também é verdade que muitas vezes se abandonam os sonhos a meio para se concretizarem os objectivos entretanto traçados.
Cumpre-se a aquisição de uma casa, que antes se sonhara e que depois se converte em objectivo atingido. Entretanto esse objectivo passa a ser o ponto de partida para o caminho de outro a alcançar = o pagamento da prestação mensal. Na perseguição deste objectivo somos obrigados a deixar alguns sonhos para trás...Para se manter o outro, que já não o é. Vamos traçando outros objectivos para tentar chegar aos sonhos pendentes, aspirando converter estes, por sua vez, em novos objectivos.
A verdade é que há sonhos que implicam o abdicar de outros sonhos, para se transformarem nessas metas mais palpáveis. Talvez por isso sejam sonhos e seja importante deixá-los assim, tê-los sem objectivar. Ou haverá coaching para isso?